3.2.12

-Façam cair o pano. Schiu! Nem um som...

(a promessa da noite estampou-se ao comprido sobre o balcão. Ao fundo o empregado afaga a pedra com um pano húmido)

- Desaustinas-me com a tua conversa vulgar e o teu olhar lassivo. Não te chega? Desapareçam!

(recupero a compostura enquanto recomponho o sobretudo que me apartava os braços. Há um fedor insondável que assombra tudo em redor.)

- Mas que porra faço eu aqui? Bem me devias ter dado ouvido e teres ficado quieto por uma vez... Sobrou-te o orgulho, não te coube no quarto.

(o burburinho aumenta numa golpada até ao bater dos copos)

_ Esta gente é massa mole, empanturrada de reality shows, batida contra a pá do tempo, que só lhes restam os esgares de lascívia e espanto... Patéticos, bamboleando trôpegos como se levados pelo vento. Animais! São todos uns animais!

(revolvo os bolso, sonâmbulo, a troco de lume. Protejo-o com a palma da mão com um ardor reconfortante)

- Um whisky, por favor.

(o empregado serve-me sem olhar com a sua usual bonomia. – Chega?)

- chega pois... Daqui não lhe vejo o fundo! Que peçanha ....

(um vulto feminino irrompe pelo salão em forma de baunilha e jasmim. Intoxicante. Faz-me cerrar os olhos, em vez das narinas, ilude os sentidos até assentar. Observo-a com evidente dificuldade. Misturam-se os contornos até se formarem em rosto e por fim, cabelo)

-lembras-me alguém. De um sonho acordado, de uma conversa passada. És tu, mas não é a tua cara. Há algo de estranho com a tua cara.

(fixo-a com atenção redobrada e com uma estranheza latente)

- és refém de alguém, de um vestido que não é teu, de um sorriso que de forma alguma se assemelha ao teu. Mudaste o cabelo? Não, não é isso... Há algo em ti que não bate certo. Merda! Mas está tudo ao contrário?

- Há algo em ti que não bate certo!

- Desculpa?

- Sim, esse perfume, esses sapatos... Mas desde quando é que usas saltos altos?

- Não sei a que....

- Não, não. Acima de tudo responde-me a isto: porque é que me deixaste pendurado este tempo todo?

(risos...a gaja ri-se... morde o copo com os lábios e pisca-me o olho)

- Vai à merda!

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