As sombras colidiram e levantaram um manto de pó que cobriu o arenal em toda a sua extensão. Assim que assentou, as crateras batidas pelo vento cresceram em contornos de colinas serpenteando no horizonte. O sol fez o seu percurso pendular sobre as suas encostas, uma e outra vez, no mesmo compasso. De cada vez, demorando-se sobre os cristais revolvidos na areia como pequenos fogos em combustão alternada. Ninguém lhe adivinhou o ponto de onde este retornava cada dia. Da guerra ficaram as estátuas e os seus grandes elmos que lhes cobriam as faces.
25.2.12
7.2.12
4.2.12

Raios concêntricos em sobreexposição. Rostos angulares perscrutando o vazio da folha. Campos abertos da memoria, relicários de tempos paralelos em espirais indefinidas. A dança da turba ondulante no sopro cadencial. Desejo exumado no num crepitar de cor. Linhas resgatadas aos livros, interrompidas . Compassos de dor e aceitação. Parábolas descritas para fora do centro. Voos rasantes no firmamento iludindo a gravidade.
Palavras de ordem. Murros na mesa. A exaltação das massas. O aperto do nó cego. O aperto das massas. A apatia anunciada do desespero. O deslumbramento do crepúsculo. A vertigem do fim do caminho. A voragem pelo fado e pelo enfado. Pontos de fuga. Perspectivas de escape. Braços estendidos ao sol da manhã. O consolo da mulher do pescador. O enrugar da folha. Os lençóis deslavados. A afinação da orquesta. O quebranto do tenor. A quimera verosímil. As odes do dia. O silêncio. O aconchego da manta. A serena contemplação. A página em branco.
3.2.12
-Façam cair o pano. Schiu! Nem um som...
(a promessa da noite estampou-se ao comprido sobre o balcão. Ao fundo o empregado afaga a pedra com um pano húmido)
- Desaustinas-me com a tua conversa vulgar e o teu olhar lassivo. Não te chega? Desapareçam!
(recupero a compostura enquanto recomponho o sobretudo que me apartava os braços. Há um fedor insondável que assombra tudo em redor.)
- Mas que porra faço eu aqui? Bem me devias ter dado ouvido e teres ficado quieto por uma vez... Sobrou-te o orgulho, não te coube no quarto.
(o burburinho aumenta numa golpada até ao bater dos copos)
_ Esta gente é massa mole, empanturrada de reality shows, batida contra a pá do tempo, que só lhes restam os esgares de lascívia e espanto... Patéticos, bamboleando trôpegos como se levados pelo vento. Animais! São todos uns animais!
(revolvo os bolso, sonâmbulo, a troco de lume. Protejo-o com a palma da mão com um ardor reconfortante)
- Um whisky, por favor.
(o empregado serve-me sem olhar com a sua usual bonomia. – Chega?)
- chega pois... Daqui não lhe vejo o fundo! Que peçanha ....
(um vulto feminino irrompe pelo salão em forma de baunilha e jasmim. Intoxicante. Faz-me cerrar os olhos, em vez das narinas, ilude os sentidos até assentar. Observo-a com evidente dificuldade. Misturam-se os contornos até se formarem em rosto e por fim, cabelo)
-lembras-me alguém. De um sonho acordado, de uma conversa passada. És tu, mas não é a tua cara. Há algo de estranho com a tua cara.
(fixo-a com atenção redobrada e com uma estranheza latente)
- és refém de alguém, de um vestido que não é teu, de um sorriso que de forma alguma se assemelha ao teu. Mudaste o cabelo? Não, não é isso... Há algo em ti que não bate certo. Merda! Mas está tudo ao contrário?
- Há algo em ti que não bate certo!
- Desculpa?
- Sim, esse perfume, esses sapatos... Mas desde quando é que usas saltos altos?
- Não sei a que....
- Não, não. Acima de tudo responde-me a isto: porque é que me deixaste pendurado este tempo todo?
(risos...a gaja ri-se... morde o copo com os lábios e pisca-me o olho)
- Vai à merda!


