Por mais zapping que faça, numa tentativa ingénua de desviar os meus pensamentos para uma zona de segurança, em que o meu corpo não se contorça com o peso da manta emocional; a rajada de luzes e sons não entorpece o meu espírito. Esgoto-me nesse labirinto televisivo de talk-shows e reportagens de futebol, como um corvo encarcerado numa bola de cristal. E para lá do brilho vem a sombra. E com a sombra levantam-se vozes inquisidoras que despertam a noite com seus discursos trôpegos.
“O que nos permitimos a ver no Outro começa num mergulho em nós próprios. Um incêndio consumiu esta manhã um jovem enquanto via entorpecido as notícias do país. O sentimento tem vida própria e vive aquartelado em nós. Você não tem nada a perder. A chama é criada na fricção entre dois corpos. O horizonte já não insinua mundos e possibilidades. Respire fundo. O jogador está claramente em offside. É tudo uma grande e espinhosa negação. A retirada de uma única pedra de fecho, pode fazer tombar toda a muralha. Os animais que percorrem mais quilómetros são as baleias. Lisboa vai ter mais um parque infantil. Não se esqueça de arejar o seu amor pela manhã. A sua cama tem milhões de ácaros. Para além do conjunto Montejunto-estrela, o odor antevê fogos que se consumem a si próprios num acto de profunda resignação. O TGV vai avançar. Temos de ir devagar. Há uma profunda consternação na morte do artista. Foi descoberta uma nova esfinge no sopé do Cairo. A PJ ainda não conseguiu identificar os suspeitos. O basalto é resultante do magma endurecido. Foi inaugurado hoje o novo estabelecimento prisional com pompa e circunstância. O resultado foi 0-0. A chama é criada na fricção entre dois corpos. As comunicações serão restabelecidas brevemente, dizem as autoridades.”
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