28.6.10


este mergulhar no vazio de uma água transparente que me cobre de todas as cores, todas as dores, sabores e odores. este querer morrer assim mergulhada na opacidade de uma água que se queria transparente. este desfazer lento dos sentidos que inebriam e mentem e omitem a transparência.
a procura da vida em cada um dos dados obtidos, impostos, aparecidos, requeridos. a sua ausência nos desejados.
visões!
são visões isto que me conduz, que me transporta e que espreita pela água que me escorre e não me limpa nem lava nem em mim se impregna. são visões isto que me arrasta e empurra sem piedade e contemplação. são mentiras vestidas de verdade. e com elas me obrigam a andar de mão dada, criança de vestido às bolinhas e tranças presas na cabeça. mulher de vestido negro, curto, pelo joelho, um salto alto equilibrante, um rímel espesso. as mesmas mentiras vestidas assim de verdade, que empurram. que arrastam.
entram as duas no mergulho da água e ambas assim se esmagam, menina e mulher!
Por mais zapping que faça, numa tentativa ingénua de desviar os meus pensamentos para uma zona de segurança, em que o meu corpo não se contorça com o peso da manta emocional; a rajada de luzes e sons não entorpece o meu espírito. Esgoto-me nesse labirinto televisivo de talk-shows e reportagens de futebol, como um corvo encarcerado numa bola de cristal. E para lá do brilho vem a sombra. E com a sombra levantam-se vozes inquisidoras que despertam a noite com seus discursos trôpegos.

“O que nos permitimos a ver no Outro começa num mergulho em nós próprios. Um incêndio consumiu esta manhã um jovem enquanto via entorpecido as notícias do país. O sentimento tem vida própria e vive aquartelado em nós. Você não tem nada a perder. A chama é criada na fricção entre dois corpos. O horizonte já não insinua mundos e possibilidades. Respire fundo. O jogador está claramente em offside. É tudo uma grande e espinhosa negação. A retirada de uma única pedra de fecho, pode fazer tombar toda a muralha. Os animais que percorrem mais quilómetros são as baleias. Lisboa vai ter mais um parque infantil. Não se esqueça de arejar o seu amor pela manhã. A sua cama tem milhões de ácaros. Para além do conjunto Montejunto-estrela, o odor antevê fogos que se consumem a si próprios num acto de profunda resignação. O TGV vai avançar. Temos de ir devagar. Há uma profunda consternação na morte do artista. Foi descoberta uma nova esfinge no sopé do Cairo. A PJ ainda não conseguiu identificar os suspeitos. O basalto é resultante do magma endurecido. Foi inaugurado hoje o novo estabelecimento prisional com pompa e circunstância. O resultado foi 0-0. A chama é criada na fricção entre dois corpos. As comunicações serão restabelecidas brevemente, dizem as autoridades.”