I
e de um trago só sorvi todo o líquidoamargo e granulado num travo de abandono.
mescla de especiarias e aromas do fundo do mar,
de ondas revoltas e negras.
o borbulhar da água fez-me recuar
e dei comigo numa costa outrora ansiada e sonhada!
tomei a pulso as pedras negras,
senti-lhes o odor viscoso, provei-lhes o doce paladar...
olhei, tinha as mãos em sangue,
e logo um rasto viscoso a mim se colou,
tomou conta de mim,seus braços me envolveram e já não era eu só, mas o lastro que me rodeava,
um abraço quente, um regaço de lembranças de outros mares e outras distâncias!
estendi-me nas lajes, o vento subia-me entre cada arfar,
trepando ao seu compasso,
este meu compasso que no seu toque se acelerou!
a vontade de partir cerrou-me os punhos, fez-me estremecer de exaltação
e assim encarcerada me quedei neste novo espanto!
tomei-te a mão!
fechei os olhos!
embalei-te numa dança ancestral, aquela que te fez subir enseadas.
guardei as dores no bolso do vestido e deixei que, mesmo com este peso, ele esvoaçasse!
e esse bordado alado esbofeteou-me até fazer sentido,
até que toda a razão assomou à janela e aos gritos me anunciou:
- de que falávamos meu amor?
- das dores pesadas no bolso do meu vestido não terem força para impedir que a tua mão me embalasse na dança...
- ou do vento louco que nos fez dançar...
talvez do mar que a esta costa agora nos trouxe!
pode um naufrago deslizar sem sentido?
... um mergulho no âmago da areia escaldante da febre!
vagas aproximam-se em perfeita cadência. uma enorme força nos trouxe aqui, com a cara coberta de areia.
e quando assim em mim te descobri, deixei que da boca um leve sopro te desnudasse.
e eras linda!
coberta em ouro com uma coroa de algas caindo sobre os ombros.
e era translúcida a tua nudez,
tecida a meigos fios de ternura.
frágeis!
quis arrancá-los um a um. fixar os dentes entre as covas da face e dizer:
- entra em mim e juntos teçamos uma nova viagem, noutro mar, com outras pedras, estendidos em umas outras lajes, banhados por outras brancas areias.
II
vá,
não fiques aí como se te tivessem roubado os berloques.
endireita esse pescoço, vem dançar comigo entrelaçado na bruma.
espera apenas só mais um pouco, deixa que a bruma mais um pouco desça sobre nós!
deixas-me inalando o teu perfume, descrevendo círculos em torno dos teus olhos tristes.
volta-me agora de costas.
encerra os teus dentes no meu ombro,
escolhe um como quem escolhe o êxtase!
tropeço nesse teu jeito desafiante.
os teus lívidos véus cobrem-me a cara, emaranho-me nos teus cabelos...
um whisky por favor!!!
ofereço-te a garrafa sem copo.
quero-te ébrio e inebriante,
quero-te trôpego e ofegante,
de um trago só!
rio-me desse teu ar maldoso.
que bem me conheces!
adianto-me à musica, puxo-te para trás e jogo-te contra mim.
fujo-te num jogo detrás do tempo,
na ânsia que de novo me puxes,
que de novo, uma outra vez mais,
e outra ainda,
assim contra ti me jogues...
III
desenrolas cada uma das minhas palavras à volta dos teus dedos.
cada frase é o abrir de uma nova história.
os teus olhos abrem-se ao infinito, e nele vejo como é grande o teu sonho.
as tuas mãos fecham o universo e nelas espreito o teu sonho grande.
sorvo esse teu ar de espanto,
entrelaço os meus pensamentos nos teus.
fazes-me bem!!
mergulho nessa tua vontade guerreira,
nessa tua ânsia e desejo de percorrer cada centímetro deste meu inóspito terreno!
Fechamos a porta atrás de nós, num assomo voraz de alcançar a rua.
e assim retomamos a fuga.
estendo-te a mão, ofereço-ta para que não me esqueças, nem permitas que eu me perca.
galgamos os passeios da calçada, os estendais e os corpos embriagados.
a cidade passa por nós como um comboio em combustão acelerada.
escolhemos a última carruagem prometendo um ao outro alcançar a sua última paragem.
passamos cambaleando por entre as malas e os corpos bulicosos.
a nossa vertigem é majestosa!!
olham-nos invejosos,
arfando e babando,
prostrados perante a montra que lhes revela o nosso amor,
deles inalcançável!
puxo-te a mão. o tempo urge!
o revisor vem cobrar as suas contas.
olho-te desesperada,
digo-te que não temos como saldá-las.
mas tu, sereno ofereces-me tranquilidade nesse teu sorriso de homem que assim se fez menino malandro...
com toda a violência o comboio trava e nós somos projectados para fora,
tombando do céu.
agarro-te contra mim e desorbitamos deste querido mundo encenado.
caímos então de novo no buraco negro, viscoso e peçonhento
do medo
e da solidão
que outrora nos havia engolido.
mas desta vez,
exalando o hálito fresco de novas descobertas.
e no fervor da queda, redescubro-te em nós mesmos.
olho no fundo dos teus olhos, buscando-me lá,
nessa esperança de uma nova vida.
arre!!! que a noite se acaba!
... e de novo eu acordo para uma outra manhã!
2 comentários:
a tua escrita é sublime
Obrigado por partilhares esta tua arte!
Beijo grande
hoje reli-te...
vou morder o teu ombro esquerdo...
beijo
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