Medo
Caminhamos sobre um pedaço de alcatrão empoeirado há já bastante tempo. Há uma luz intensa, contínua e inclemente que apaga todos os contornos. Os pés ardem como tochas no restolho cru da nossa marcha. Vimos de longe, não sei por quais caminhos. Não é mais fácil olhar para trás do que além, a memória escapa-se pelos dedos e quando a tentamos agarrar já a sua forma é outra, uma coisa sonhada que nos vai pintando a marcha.
Hoje está um sol castigador. A vontade em chegar adianta-se aos passos. Vemos sombras distantes, prenúncio do destino, quimeras e outras tantas fantasias. «Estou tão perto que lhes adivinho as formas. Sopro vento em cada esquina, em cada vidraça embaciada pela manhã. Reconheço cada limite, cada domínio. É meu. Tudo isto.»
Os passos aceleram na rudeza do betume. A vista encurta com a incidência da luz, fixa-se no chão presa aos detalhes do pavimento. «Como isto me cega»! As pernas tremem, o peso cai sobre os joelhos. O quadro mantém-se ao fundo, inalterado. Do mesmo tamanho, envolto na mesma bruma. A marcha, essa não pára, porque se parar, paro eu. Não estou preparado para fracassar, e talvez seja essa a minha maior cruz.
19.4.10
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