20.2.10

Antes de tudo isto, tinha o copo cheio. Com aquela terrível sensação de poder transbordar ao mínimo movimento. E é claro, que tudo se esvaía mais tarde ou mais cedo. Eu sabia-o, já o esperava. Não estamos a falar de tremores de terra ou convulsões doentias, que por serem doentias se medem à distância. Tudo acontecia sem aviso. Uma frase inacabada, uma suspensão do olhar, um prelúdio de dúvida. Iria-me esbofetear a cara ao abrir da porta e fechar-me cá fora. Pensava: fui despejado de mim mesmo... E tentava lembrar-me onde tudo teria começado. "Onde está afinal aquele fio? Sim, aquele fio de que falávamos durante horas quando o mundo corria lá fora, e olhavas-me desde essa escada que construí para nós. Para onde foi?" O fio, como qualquer outro fio, não tem pontas. Imaginamos que sim mas, quando enrodilhados nele de que vale procurar a ponta? É o novelo que nos move. Andamos dentro dele, com a mão sobre o copo para que não se esvazie de uma vez. Passamos pelas rua mas nem as reconhecemos. Pensamos que o mundo se moveu do sítio. Que deu lugar a uma encenação de mau gosto, cheio de frases fúteis e comichosas para nos afagar o ego. Mas a vida, acaba sempre por nos esbofetear. Sim, parece ser esse o nosso fado. Não gosto de reticências, muito menos de fado... Uso-as, tolero-as, mas no fundo desprezo-as. É uma maneira de evitar o espelho, passar pela vida sem estar constantemente a tactear o nosso fundo. Na altura, não gostava de andar de copo cheio. Tudo aquilo me cansava, afinal quem consegue se equilibrar indefinidamente? Isso é jogo para crianças e eu já sou bem crescido. Andava, porque tinha de segurar o copo. Não o poderia deixar cair. Imaginem, deixar cair a metáfora! Três anos. Quatro longos anos segurando esse copo que ninguém vê e tão pouco interessa. Por fim, e sem achar esse fundo, estou vazio. O problema de estar vazio é não sentir mais, e isso agrada-me por agora. Sinto-me bastante inócuo, incapaz de ser preenchido e embrulhado numa luta insana por me ir preenchendo. Mas por agora, nem sinto as palavras e nem articulo uma frase.

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