“Tudo demasiado visto” - diz Rimbaud antes de marchar para o deserto.
Porque escrevemos? O que nos leva a debruçar sobre um papel em branco e esperar pelo vulto que apareça? Haverá alguém que saiba realmente porque escreve?
Eu sou incapaz de encarar a escrita como um trabalho, uma jornada se preferirmos. Não é que não compreenda isso, não que seja de todo impossível aceitar que o Saramago e o Lobo Antunes se olhem ao espelho com o mesmo ar magnânimo de um amolador ou um técnico de contas. Apenas, não o quero fazer. Revejo-me mais no desenho do que na escrita. Não é bem por aí.
Mas, e quem é que morre se não escrever? Isto de entender a escrita como uma coisa primária fez-me sempre urticária. Parece-me retirado de um panfleto que insistem em colocar na minha caixa de correio.
Será uma coisa ruim? Uma náusea que nos dá, um presságio de náusea? Ou algo a quem emprestamos corpo e tempo para nos fazer sentir melhor, e assim afagar o ego? Ou é uma pia aberta onde a alma vai pingando o sol de cada dia? E o que é isto? Gentilmente alguém dirá que é um veículo, e eu jamais me atreveria a desmentir. A ideia da escrita como um veículo de mensagens é tão comicamente lacónica que é como dizer que uma palavra é uma conjugação de letras do alfabeto.
Andarei eu excessivamente entediado, a precisar de atribuir significado às coisas? E porque raio há tanta gente a ter um blog? A escrita é o novo deserto? É que num deserto tudo cabe, desde o aviãozinho ao grão de areia. Não acredito que seja uma fuga, nem de mim mesmo. Um encontro? Temos de admitir que há um prazer enorme em as palavras nos sítios certos. E se for só isso? Se lhe polirmos todas as manchas do tempo, das disposições de cada um, de todo o hábito, de todos os véus que instintivamente lhe queremos dar, o que resta? O que resta da escrita?