21.2.10


o ar torna-se subitamente rarefeito, uma densidade insuportável e o apelo de que algo que tão perfeitamente em nós cabia se pode expandir nessa dilatação sem densidade fica tão imperativamente forte que um caminho existe: deixar que todos os vultos que assim deixam afinal de caber em nós, apareçam e se desvendam para que possamos finalmente conhecê-los cara a cara, respiração com respiração... assim nasce a escrita. assim se chama a escrita. assim se chama a este respirar. a este nascer.
e depois conhecemos!

20.2.10

“Tudo demasiado visto” - diz Rimbaud antes de marchar para o deserto.
Porque escrevemos? O que nos leva a debruçar sobre um papel em branco e esperar pelo vulto que apareça? Haverá alguém que saiba realmente porque escreve?
Eu sou incapaz de encarar a escrita como um trabalho, uma jornada se preferirmos. Não é que não compreenda isso, não que seja de todo impossível aceitar que o Saramago e o Lobo Antunes se olhem ao espelho com o mesmo ar magnânimo de um amolador ou um técnico de contas. Apenas, não o quero fazer. Revejo-me mais no desenho do que na escrita. Não é bem por aí.
Mas, e quem é que morre se não escrever? Isto de entender a escrita como uma coisa primária fez-me sempre urticária. Parece-me retirado de um panfleto que insistem em colocar na minha caixa de correio.
Será uma coisa ruim? Uma náusea que nos dá, um presságio de náusea? Ou algo a quem emprestamos corpo e tempo para nos fazer sentir melhor, e assim afagar o ego? Ou é uma pia aberta onde a alma vai pingando o sol de cada dia? E o que é isto? Gentilmente alguém dirá que é um veículo, e eu jamais me atreveria a desmentir. A ideia da escrita como um veículo de mensagens é tão comicamente lacónica que é como dizer que uma palavra é uma conjugação de letras do alfabeto.
Andarei eu excessivamente entediado, a precisar de atribuir significado às coisas? E porque raio há tanta gente a ter um blog? A escrita é o novo deserto? É que num deserto tudo cabe, desde o aviãozinho ao grão de areia. Não acredito que seja uma fuga, nem de mim mesmo. Um encontro? Temos de admitir que há um prazer enorme em as palavras nos sítios certos. E se for só isso? Se lhe polirmos todas as manchas do tempo, das disposições de cada um, de todo o hábito, de todos os véus que instintivamente lhe queremos dar, o que resta? O que resta da escrita?

não é o cansaço que me abandona a imagem mas sim a relutante igualdade de anos corridos gota a gota.

abandonei o nome.
perdida dele, resta-me um nada que vou guardar juntamente com o espelho.

perdidos os dois, nome e imagem,
quedar-me-á
quiçá,
a vontade de um dia também a porta fechar!
Antes de tudo isto, tinha o copo cheio. Com aquela terrível sensação de poder transbordar ao mínimo movimento. E é claro, que tudo se esvaía mais tarde ou mais cedo. Eu sabia-o, já o esperava. Não estamos a falar de tremores de terra ou convulsões doentias, que por serem doentias se medem à distância. Tudo acontecia sem aviso. Uma frase inacabada, uma suspensão do olhar, um prelúdio de dúvida. Iria-me esbofetear a cara ao abrir da porta e fechar-me cá fora. Pensava: fui despejado de mim mesmo... E tentava lembrar-me onde tudo teria começado. "Onde está afinal aquele fio? Sim, aquele fio de que falávamos durante horas quando o mundo corria lá fora, e olhavas-me desde essa escada que construí para nós. Para onde foi?" O fio, como qualquer outro fio, não tem pontas. Imaginamos que sim mas, quando enrodilhados nele de que vale procurar a ponta? É o novelo que nos move. Andamos dentro dele, com a mão sobre o copo para que não se esvazie de uma vez. Passamos pelas rua mas nem as reconhecemos. Pensamos que o mundo se moveu do sítio. Que deu lugar a uma encenação de mau gosto, cheio de frases fúteis e comichosas para nos afagar o ego. Mas a vida, acaba sempre por nos esbofetear. Sim, parece ser esse o nosso fado. Não gosto de reticências, muito menos de fado... Uso-as, tolero-as, mas no fundo desprezo-as. É uma maneira de evitar o espelho, passar pela vida sem estar constantemente a tactear o nosso fundo. Na altura, não gostava de andar de copo cheio. Tudo aquilo me cansava, afinal quem consegue se equilibrar indefinidamente? Isso é jogo para crianças e eu já sou bem crescido. Andava, porque tinha de segurar o copo. Não o poderia deixar cair. Imaginem, deixar cair a metáfora! Três anos. Quatro longos anos segurando esse copo que ninguém vê e tão pouco interessa. Por fim, e sem achar esse fundo, estou vazio. O problema de estar vazio é não sentir mais, e isso agrada-me por agora. Sinto-me bastante inócuo, incapaz de ser preenchido e embrulhado numa luta insana por me ir preenchendo. Mas por agora, nem sinto as palavras e nem articulo uma frase.