26.10.10

chama o tempo pela saudade.

clama-o num sussurro, uma ventania sabendo a brisa de encontro à dureza deste jogo solitário.
outrora um dia eram jovens
então era velha de séculos a alma.
hoje
riachos de suor transparente
montes e montanhas pulsantes e azuladas
uma alma rejuvesnecida,
e o tempo chamando:
saudade... ó saudade!!!

Há uma fina camada de cepticismo escorrendo pela janela. Percorre o quadro outonal com um olhar resignado, mas não moribundo. Um pequeno fervor humedece-lhe a retina. Balança a sua cabeça sobre o seu pulso firme. Hesita em dizer algo. Tacteia os bolsos num gesto abrupto e mecanizado. Prefere um cigarro. Acende-o, como se a vida dependesse da rapidez com que faz rolar a pedra. O tempo urge, o tempo consome, e no entanto, entre o pulsar da inquietude ninguém conta os segundos. Que alma burocrática se daria ao trabalho? Porém, o céu move-se diria ele desligado da Astrofísica e ciências que tais. Pois, o tempo... O tempo não é para postulados e corolários, as nuvens vêem com um pressagio e, é preciso escutá-lo. Mas primeiro, será melhor calar esta voz que me atormenta, esta ladainha que me faz resvalar para o Conto, para a Quimera e as filhas dela. Ah!!! Que som tem o Tempo, sem nós para o contar?




não nos envolve já a leveza do segredo partilhado
entre nós e nós e entre nós e ele, vozes se juntam...


vozes que anseiam ser toque

vozes que desejam ser cheiro

vozes que aspiram ao paladar

entre nós e o nosso segredo, perdido no cansaço daquele e deste dia ao dia, buscamos na lembrança dessas outras vozes que agora espreitam, nós e o nosso segredo...

raízes apodrecidas

raízes ruidosas

e éramos apenas nós e o nosso segredo!


*

Fizemos deste ermo ressequido o nosso círculo, a nossa pequena lenda. Um dedo apontado aos sonhos, tão alto e estreito, que caminhamos nas pontas dos pés. É frequente, nestas longas caminhadas, fixarmos os olhos no chão e erguer os braços, não por penitência mas por simples equilíbrio. Não chove há meses, num outro dia diria anos. Porque prosseguimos caminhando como figuras de Giacometti é um mistério. Mas a procissão avança pelo trilho, por entre as urzes e os seixos rolados, outrora um rio.


-Fizemos um nó tremendo, lembras-te?





**

Vivemos dentro de uma caixa, como aquelas que eu por vezes faço. Dentro, todos os planos são possíveis, toda a perspectiva é assumida. Eu, gesticulo uma linha no ar e, tu, pintas com as tuas cores, as nossas cores. Tudo na caixa gravita, flutua, contorce-se e ri. E como nos rimos! Basta puxar-te para mim, que os teus pernas se trocam como uma hera que trepa. E à noite, quando me contas as pequenas estórias do dia, as paredes se enchem de luz e personagens novas, relâmpagos do dia que me absorvem de todos os outros pensamentos. E as danças trôpegas!.. Nunca me apercebi se seremos nós a orbitar, ou se a caixa, por algum desígnio maior se inclina para nós. E não interessa... Dentro, somos seres majestosos. E a única sombra, é a que cai do teu cabelo em fúria.





***

É tudo um jogo de espelhos. um jogo de espelhos. Nunca dentro, sempre na margem do que poderia ser. Uma fábula de encantamento, uma ladainha para acalmar o espírito.

Neste carrossel desmedido trabalho com afinco. Sem mácula.




28.6.10


este mergulhar no vazio de uma água transparente que me cobre de todas as cores, todas as dores, sabores e odores. este querer morrer assim mergulhada na opacidade de uma água que se queria transparente. este desfazer lento dos sentidos que inebriam e mentem e omitem a transparência.
a procura da vida em cada um dos dados obtidos, impostos, aparecidos, requeridos. a sua ausência nos desejados.
visões!
são visões isto que me conduz, que me transporta e que espreita pela água que me escorre e não me limpa nem lava nem em mim se impregna. são visões isto que me arrasta e empurra sem piedade e contemplação. são mentiras vestidas de verdade. e com elas me obrigam a andar de mão dada, criança de vestido às bolinhas e tranças presas na cabeça. mulher de vestido negro, curto, pelo joelho, um salto alto equilibrante, um rímel espesso. as mesmas mentiras vestidas assim de verdade, que empurram. que arrastam.
entram as duas no mergulho da água e ambas assim se esmagam, menina e mulher!
Por mais zapping que faça, numa tentativa ingénua de desviar os meus pensamentos para uma zona de segurança, em que o meu corpo não se contorça com o peso da manta emocional; a rajada de luzes e sons não entorpece o meu espírito. Esgoto-me nesse labirinto televisivo de talk-shows e reportagens de futebol, como um corvo encarcerado numa bola de cristal. E para lá do brilho vem a sombra. E com a sombra levantam-se vozes inquisidoras que despertam a noite com seus discursos trôpegos.

“O que nos permitimos a ver no Outro começa num mergulho em nós próprios. Um incêndio consumiu esta manhã um jovem enquanto via entorpecido as notícias do país. O sentimento tem vida própria e vive aquartelado em nós. Você não tem nada a perder. A chama é criada na fricção entre dois corpos. O horizonte já não insinua mundos e possibilidades. Respire fundo. O jogador está claramente em offside. É tudo uma grande e espinhosa negação. A retirada de uma única pedra de fecho, pode fazer tombar toda a muralha. Os animais que percorrem mais quilómetros são as baleias. Lisboa vai ter mais um parque infantil. Não se esqueça de arejar o seu amor pela manhã. A sua cama tem milhões de ácaros. Para além do conjunto Montejunto-estrela, o odor antevê fogos que se consumem a si próprios num acto de profunda resignação. O TGV vai avançar. Temos de ir devagar. Há uma profunda consternação na morte do artista. Foi descoberta uma nova esfinge no sopé do Cairo. A PJ ainda não conseguiu identificar os suspeitos. O basalto é resultante do magma endurecido. Foi inaugurado hoje o novo estabelecimento prisional com pompa e circunstância. O resultado foi 0-0. A chama é criada na fricção entre dois corpos. As comunicações serão restabelecidas brevemente, dizem as autoridades.”

9.5.10


olhemos:
na ferrugem do voyerismo que impregnei no teu desejo. no corte lancinante do olho assim rasgado perante o espanto. a necessidade intrínseca de assim para ti me desnudar. ontem, hoje e amanhã.
onde te perdi?
onde te encontrei?
agora estamos aqui. eu deste lado e tu assim rasgado!
escondo-me mostrando-te o abismo onde habito. revelando-te a ténue luz que me alumia, os alvos lençóis que me acariciarão quando o teu olhar não mais me puder alcançar...
a luz entinguir-se-á!
o alvo lençol sujo quedará!
o e restante será visceralmente alma e lama...
encontra depressa a chave
Uma cadeira tremendo ao rebentar das ondas. Asas planando contra o vento. Cabelos agitados contra a face. O odor das algas apanhado na nuvem de orvalho quente. Redes batidas pelo manto de areia fina. Sal beijando a pele repetidamente. Um raio de sol descendo sobre a testa. O soar abafado de passos distantes. O crepitar da espuma. O meu corpo inerte sobre as pequenas elevações de areia. O toque suave da toalha. Gotas pingando das orelhas. O sabor do mar nos teus lábios. O apagar dos passos num espelho de água que avança preguiçosamente. O barulho das penas cortando o ar. O horizonte esfumado em luz. O cintilar das águas. Um novo e longo mergulho. A respiração suspensa. Os braços remando no borbulhar da rebentação. Olhar em volta. O fundo sem fundo. Deslizar nas correntes. O sol queimando o rosto molhado. Esbracejar sem esforço até à margem. O erguer trôpego no fundo revolvido. Torcer os calções. Olhar de volta. O peito soprado de vida. A respiração com vida própria. Fechar os olhos contra o sol, e ver planetas movendo-se no limiar da retina. Onde estive eu este tempo todo?

1.5.10

cara a cara: o tudo e o nada!

I
e de um trago só sorvi todo o líquido
amargo e granulado num travo de abandono.
mescla de especiarias e aromas do fundo do mar,
de ondas revoltas e negras.
o borbulhar da água fez-me recuar
e dei comigo numa costa outrora ansiada e sonhada!
tomei a pulso as pedras negras,
senti-lhes o odor viscoso, provei-lhes o doce paladar...
olhei, tinha as mãos em sangue,
e logo um rasto viscoso a mim se colou,
tomou conta de mim,seus braços me envolveram e já não era eu só, mas o lastro que me rodeava,
um abraço quente, um regaço de lembranças de outros mares e outras distâncias!
estendi-me nas lajes, o vento subia-me entre cada arfar,
trepando ao seu compasso,
este meu compasso que no seu toque se acelerou!
a vontade de partir cerrou-me os punhos, fez-me estremecer de exaltação
e assim encarcerada me quedei neste novo espanto!
tomei-te a mão!
fechei os olhos!
embalei-te numa dança ancestral, aquela que te fez subir enseadas.
guardei as dores no bolso do vestido e deixei que, mesmo com este peso, ele esvoaçasse!
e esse bordado alado esbofeteou-me até fazer sentido,
até que toda a razão assomou à janela e aos gritos me anunciou:
- de que falávamos meu amor?
- das dores pesadas no bolso do meu vestido não terem força para impedir que a tua mão me embalasse na dança...
- ou do vento louco que nos fez dançar...
talvez do mar que a esta costa agora nos trouxe!
pode um naufrago deslizar sem sentido?
... um mergulho no âmago da areia escaldante da febre!
vagas aproximam-se em perfeita cadência. uma enorme força nos trouxe aqui, com a cara coberta de areia.
e quando assim em mim te descobri, deixei que da boca um leve sopro te desnudasse.
e eras linda!
coberta em ouro com uma coroa de algas caindo sobre os ombros.
e era translúcida a tua nudez,
tecida a meigos fios de ternura.
frágeis!
quis arrancá-los um a um. fixar os dentes entre as covas da face e dizer:
- entra em mim e juntos teçamos uma nova viagem, noutro mar, com outras pedras, estendidos em umas outras lajes, banhados por outras brancas areias.


II


vá,
não fiques aí como se te tivessem roubado os berloques.
endireita esse pescoço, vem dançar comigo entrelaçado na bruma.
espera apenas só mais um pouco, deixa que a bruma mais um pouco desça sobre nós!
deixas-me inalando o teu perfume, descrevendo círculos em torno dos teus olhos tristes.
volta-me agora de costas.
encerra os teus dentes no meu ombro,
escolhe um como quem escolhe o êxtase!
tropeço nesse teu jeito desafiante.
os teus lívidos véus cobrem-me a cara, emaranho-me nos teus cabelos...
um whisky por favor!!!
ofereço-te a garrafa sem copo.
quero-te ébrio e inebriante,
quero-te trôpego e ofegante,
de um trago só!
rio-me desse teu ar maldoso.
que bem me conheces!
adianto-me à musica, puxo-te para trás e jogo-te contra mim.
fujo-te num jogo detrás do tempo,
na ânsia que de novo me puxes,
que de novo, uma outra vez mais,
e outra ainda,
assim contra ti me jogues...


III


desenrolas cada uma das minhas palavras à volta dos teus dedos.
cada frase é o abrir de uma nova história.
os teus olhos abrem-se ao infinito, e nele vejo como é grande o teu sonho.
as tuas mãos fecham o universo e nelas espreito o teu sonho grande.
sorvo esse teu ar de espanto,
entrelaço os meus pensamentos nos teus.
fazes-me bem!!
mergulho nessa tua vontade guerreira,
nessa tua ânsia e desejo de percorrer cada centímetro deste meu inóspito terreno!
Fechamos a porta atrás de nós, num assomo voraz de alcançar a rua.
e assim retomamos a fuga.

estendo-te a mão, ofereço-ta para que não me esqueças, nem permitas que eu me perca.
galgamos os passeios da calçada, os estendais e os corpos embriagados.
a cidade passa por nós como um comboio em combustão acelerada.
escolhemos a última carruagem prometendo um ao outro alcançar a sua última paragem.
passamos cambaleando por entre as malas e os corpos bulicosos.
a nossa vertigem é majestosa!!
olham-nos invejosos,
arfando e babando,
prostrados perante a montra que lhes revela o nosso amor,
deles inalcançável!
puxo-te a mão. o tempo urge!
o revisor vem cobrar as suas contas.
olho-te desesperada,
digo-te que não temos como saldá-las.
mas tu, sereno ofereces-me tranquilidade nesse teu sorriso de homem que assim se fez menino malandro...
com toda a violência o comboio trava e nós somos projectados para fora,
tombando do céu.
agarro-te contra mim e desorbitamos deste querido mundo encenado.
caímos então de novo no buraco negro, viscoso e peçonhento
do medo
e da solidão
que outrora nos havia engolido.
mas desta vez,
exalando o hálito fresco de novas descobertas.
e no fervor da queda, redescubro-te em nós mesmos.

olho no fundo dos teus olhos, buscando-me lá,
nessa esperança de uma nova vida.
arre!!! que a noite se acaba!
... e de novo eu acordo para uma outra manhã!

19.4.10

Medo

Caminhamos sobre um pedaço de alcatrão empoeirado há já bastante tempo. Há uma luz intensa, contínua e inclemente que apaga todos os contornos. Os pés ardem como tochas no restolho cru da nossa marcha. Vimos de longe, não sei por quais caminhos. Não é mais fácil olhar para trás do que além, a memória escapa-se pelos dedos e quando a tentamos agarrar já a sua forma é outra, uma coisa sonhada que nos vai pintando a marcha.
Hoje está um sol castigador. A vontade em chegar adianta-se aos passos. Vemos sombras distantes, prenúncio do destino, quimeras e outras tantas fantasias. «Estou tão perto que lhes adivinho as formas. Sopro vento em cada esquina, em cada vidraça embaciada pela manhã. Reconheço cada limite, cada domínio. É meu. Tudo isto.»

Os passos aceleram na rudeza do betume. A vista encurta com a incidência da luz, fixa-se no chão presa aos detalhes do pavimento. «Como isto me cega»! As pernas tremem, o peso cai sobre os joelhos. O quadro mantém-se ao fundo, inalterado. Do mesmo tamanho, envolto na mesma bruma. A marcha, essa não pára, porque se parar, paro eu. Não estou preparado para fracassar, e talvez seja essa a minha maior cruz.

21.2.10


o ar torna-se subitamente rarefeito, uma densidade insuportável e o apelo de que algo que tão perfeitamente em nós cabia se pode expandir nessa dilatação sem densidade fica tão imperativamente forte que um caminho existe: deixar que todos os vultos que assim deixam afinal de caber em nós, apareçam e se desvendam para que possamos finalmente conhecê-los cara a cara, respiração com respiração... assim nasce a escrita. assim se chama a escrita. assim se chama a este respirar. a este nascer.
e depois conhecemos!

20.2.10

“Tudo demasiado visto” - diz Rimbaud antes de marchar para o deserto.
Porque escrevemos? O que nos leva a debruçar sobre um papel em branco e esperar pelo vulto que apareça? Haverá alguém que saiba realmente porque escreve?
Eu sou incapaz de encarar a escrita como um trabalho, uma jornada se preferirmos. Não é que não compreenda isso, não que seja de todo impossível aceitar que o Saramago e o Lobo Antunes se olhem ao espelho com o mesmo ar magnânimo de um amolador ou um técnico de contas. Apenas, não o quero fazer. Revejo-me mais no desenho do que na escrita. Não é bem por aí.
Mas, e quem é que morre se não escrever? Isto de entender a escrita como uma coisa primária fez-me sempre urticária. Parece-me retirado de um panfleto que insistem em colocar na minha caixa de correio.
Será uma coisa ruim? Uma náusea que nos dá, um presságio de náusea? Ou algo a quem emprestamos corpo e tempo para nos fazer sentir melhor, e assim afagar o ego? Ou é uma pia aberta onde a alma vai pingando o sol de cada dia? E o que é isto? Gentilmente alguém dirá que é um veículo, e eu jamais me atreveria a desmentir. A ideia da escrita como um veículo de mensagens é tão comicamente lacónica que é como dizer que uma palavra é uma conjugação de letras do alfabeto.
Andarei eu excessivamente entediado, a precisar de atribuir significado às coisas? E porque raio há tanta gente a ter um blog? A escrita é o novo deserto? É que num deserto tudo cabe, desde o aviãozinho ao grão de areia. Não acredito que seja uma fuga, nem de mim mesmo. Um encontro? Temos de admitir que há um prazer enorme em as palavras nos sítios certos. E se for só isso? Se lhe polirmos todas as manchas do tempo, das disposições de cada um, de todo o hábito, de todos os véus que instintivamente lhe queremos dar, o que resta? O que resta da escrita?

não é o cansaço que me abandona a imagem mas sim a relutante igualdade de anos corridos gota a gota.

abandonei o nome.
perdida dele, resta-me um nada que vou guardar juntamente com o espelho.

perdidos os dois, nome e imagem,
quedar-me-á
quiçá,
a vontade de um dia também a porta fechar!
Antes de tudo isto, tinha o copo cheio. Com aquela terrível sensação de poder transbordar ao mínimo movimento. E é claro, que tudo se esvaía mais tarde ou mais cedo. Eu sabia-o, já o esperava. Não estamos a falar de tremores de terra ou convulsões doentias, que por serem doentias se medem à distância. Tudo acontecia sem aviso. Uma frase inacabada, uma suspensão do olhar, um prelúdio de dúvida. Iria-me esbofetear a cara ao abrir da porta e fechar-me cá fora. Pensava: fui despejado de mim mesmo... E tentava lembrar-me onde tudo teria começado. "Onde está afinal aquele fio? Sim, aquele fio de que falávamos durante horas quando o mundo corria lá fora, e olhavas-me desde essa escada que construí para nós. Para onde foi?" O fio, como qualquer outro fio, não tem pontas. Imaginamos que sim mas, quando enrodilhados nele de que vale procurar a ponta? É o novelo que nos move. Andamos dentro dele, com a mão sobre o copo para que não se esvazie de uma vez. Passamos pelas rua mas nem as reconhecemos. Pensamos que o mundo se moveu do sítio. Que deu lugar a uma encenação de mau gosto, cheio de frases fúteis e comichosas para nos afagar o ego. Mas a vida, acaba sempre por nos esbofetear. Sim, parece ser esse o nosso fado. Não gosto de reticências, muito menos de fado... Uso-as, tolero-as, mas no fundo desprezo-as. É uma maneira de evitar o espelho, passar pela vida sem estar constantemente a tactear o nosso fundo. Na altura, não gostava de andar de copo cheio. Tudo aquilo me cansava, afinal quem consegue se equilibrar indefinidamente? Isso é jogo para crianças e eu já sou bem crescido. Andava, porque tinha de segurar o copo. Não o poderia deixar cair. Imaginem, deixar cair a metáfora! Três anos. Quatro longos anos segurando esse copo que ninguém vê e tão pouco interessa. Por fim, e sem achar esse fundo, estou vazio. O problema de estar vazio é não sentir mais, e isso agrada-me por agora. Sinto-me bastante inócuo, incapaz de ser preenchido e embrulhado numa luta insana por me ir preenchendo. Mas por agora, nem sinto as palavras e nem articulo uma frase.