16.5.12


Fizeste o melhor que os teus frágeis braços te permitiram. Abriste a janela e deixaste que o vento fresco da manhã te apertasse a roupa. Desceste diligentemente as escadas. Esperaste que a chaleira te chamasse para um novo dia. Pouco importa se estivesse chuva ou abafado, calçarias o primeiro par que encontrasses e foi assim e sem mais demora, que te lançaste sobre a grande serpente. Não demoraste muito até tentares repelir uma dúzia de tormentos com uma valente golfada de nicotina, seguido de um insistente e louvável esforço por te entreteres com algum detalhe mágico na parada urbana que te corria ao lado. 
Talvez um dia possas subir o rio com uma força sobrehumana, ou acelerar furiosamente sob a corrente. Por ora, deixas os pensamentos rodarem sobre o seu eixo, acertando o passo com a terra a teus pés. 

Como Atlas, equilibrando sobre os ombros o peso que a gravidade tem.


25.2.12

As sombras colidiram e levantaram um manto de pó que cobriu o arenal em toda a sua extensão. Assim que assentou, as crateras batidas pelo vento cresceram em contornos de colinas serpenteando no horizonte. O sol fez o seu percurso pendular sobre as suas encostas, uma e outra vez, no mesmo compasso. De cada vez, demorando-se sobre os cristais revolvidos na areia como pequenos fogos em combustão alternada. Ninguém lhe adivinhou o ponto de onde este retornava cada dia. Da guerra ficaram as estátuas e os seus grandes elmos que lhes cobriam as faces.

7.2.12

E depois fomos para a guerra. Degladiando num arenal de despojos. Eu e tu. De elmos reluzindo ao sol. Pés fincados na areia, rostos ásperos como esfinges. Erguendo as lanças numa batalha contra o tempo. Eu e tu. Frente a frente. Com as sombras a avançarem, ora uma, ora outra, no contar dos dias.


perdamo-nos então neste cruzar de pernas

o meu despido!


deixemos que entre elas repouse também o silêncio do nosso amargo desejo assim feito o fim...


Arregacei os calções e num só gesto cruzei as pernas.
Deixei tombar a cabeça sobre os nós dos dedos enquanto te ouvia.
As tuas expressões ganhavam novo fulgor a cada frase entoada.
Um mundo de espanto entrava pelo quarto, a cada braçada como que sacudindo de brilho o soalho, os móveis, com o sabor fresco de madeira humedecida.
E o sal...
É como se o sentisse cobrindo todos os poros...
E com o sal tudo acaba bem, não é?
lânguido este querer do mergulho
sedoso e inebriante ondular

podia ser o teu cabelo enrolado nos meus dedos pequenos
podia ser o teu sorrir enroscado nos cantos da tua boca
um encolher de ombros nascido do meu afago

mergulho
afogo o afago
e deixo-me ir
assim, seda e lânguida...


Envolve-me num gesto longo e profundo e eu dar-me-ei à tua vaga. Deixa-la-ei revolver os meus cabelos sem resistir. Aqui não há som nem sombra. Aqui. Transpareço.